Para além de encantadores de serpentes

Telma Gimenez

É impossível se dizer que a viagem de dez dias que fiz recentemente permite vislumbrar, ainda que timidamente, o que seja a Índia. Este país, que na atualidade procura construir uma imagem de modernidade, revela contrastes surpreendentes. Por exemplo, se assistirmos ao documentário de Sanjeev Bhaskar, produzido para a BBC, saberemos que Mumbai não é apenas uma cidade com uma das maiores favelas do mundo, mas é lar de milionários com seus iates e festas luxuosas e que em Bangalore um editor de estórias em quadrinhos mescla figuras míticas ancestrais com toques de modernidade. No filme de 2007, Namastey, London, o personagem indiano esclarece ao inglês pedante que afirma ser a Índia país de encantadores de serpentes, que ela não é isso: produz carros, tem tecnologia avançada, a segunda maior população do mundo e que está em ascensão no cenário internacional.

Mas a Índia é também um país de encantadores de serpentes, ainda que tenha caminhado muito para não ser apenas isso. Foi com esse estereótipo que embarquei para Bangalore, para conhecer a cidade que na última década se tornou o novo “Vale do Silício” e cujas ligações com Londrina começam a se fortalecer. É verdade que a cidade tem testemunhado progresso surpreendente, com transformações no estilo de vida de uma parcela de seus habitantes que alimenta uma efervescente vida noturna. Mas é também verdade que boa parte da população vive em condições miseráveis, em meio ao lixo depositado nas ruas e nos rios.

Também tinha como pressuposto que o inglês seria falado por todos, já que é uma das línguas oficiais e a que funciona como língua franca em um país de imensa riqueza lingüística e cultural. Esta imagem também foi desafiada pelas tentativas (muitas vezes infrutíferas) de conversar com motoristas de táxi (ou auto-riquixás) e funcionários menos graduados em hotéis. Na verdade, soube por uma colega pesquisadora, durante a conferência sobre ensino de inglês da qual participei, que apenas 15% dos indianos graduados são empregáveis pelos setores que demandam bom conhecimento daquela língua. Isto tem se tornado uma preocupação para os setores que dependem de pessoal proficiente em inglês.

Índia e Brasil partilham de muitas semelhanças. Ambos os países são hoje identificados como promessas no cenário econômico internacional. Ambos exibem índices de desigualdades sociais revoltantes. A Índia, no entanto, em virtude de sua história milenar, nos convida a refletir sobre as motivações que nos levam a aceitar a diversidade como elemento enriquecedor da experiência humana, em um contexto que sofre forte impacto da globalização.

E, a propósito, fotografei sim um encantador de serpentes.

Telma Gimenez, professora universitária em Londrina.

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